Origem, História e Evolução
As Primeiras Populações Bovinas nos Açores
Estima-se que as raças portuguesas foram a base genética das populações bovinas açorianas, sendo introduzidas por volta de 1427. Pelo que não seria de esperar que houvesse uma definição das raças tão clara como hoje em dia, haveria, sim, tipos predominantes com uma associação fitogeográfica (Paula Nogueira, 1900). Segundo Bruges (1915), foram estas populações de gado indígena que foram a base dos animais que no início do século XX predominavam nas ilhas, os quais escreveram a história da agricultura da época.
“As vacas Catrina foram o princípio da minha vida” — José Eliseu Mendes
A Origem do Nome “Catrina”
A origem do nome Catrina, à semelhança da origem das populações que povoaram as ilhas, apresenta teorias diversas. Segundo o atual lavrador Francisco Sousa, o nome Catrina teve origem num touro do seu bisavô Senhor João de Sousa (Cadelinha), que foi vendido a um Senhor apelidado de “Catrina” do Porto Judeu, ficando assim o touro conhecido por “Catrina Velho”. Este animal, foi utilizado para cobrir muitas vacas locais que deram boas crias que se passaram a designar por “Catrinas”, dado apresentarem uma mancha branca junto à virilha (Aranda e Silva, 2006) e à semelhança do restante gado da época (1910-1920) foi corrido à corda.
Gado da terra, gado de curral ou gado de cima
O Gado Catrina, conhecido como “gado de curral” pela sua ligação à ordenha doméstica, era um pilar da economia local. Face às suas múltiplas aptidões, estes animais eram fundamentais nas tarefas de campo, garantindo a subsistência de muitas famílias através de um leite/carne de qualidade superior. A sua rotina juntava o trabalho com o lazer: após a ordenha, era frequente a sua presença em manifestações taurinas, face ao seu temperamento vivo e nervoso, herança do regime de liberdade em que viviam nos matos e pastagens de altitude, o que justifica a sua outra designação popular como “gado de cima”.
Gado Catrina: O Equilíbrio com a Natureza
A raça Catrina é o reflexo vivo da resiliência açoriana. Criada em regime de pastagem permanente e seminatural, esta raça desenvolveu uma rusticidade notável, tornando-se capaz de prosperar em zonas de altitude e relevo acidentado. Mesmo perante amplitudes térmicas significativas e pastos de reduzido valor nutricional, o gado Catrina demonstra um aproveitamento forrageiro excecional. Este modelo de criação baseia-se num maneio rotativo e controlado, que não só otimiza os recursos naturais, como preserva a vegetação endémica. É, por excelência, um sistema de produção de baixo impacto ambiental, onde o animal e a paisagem coexistem em perfeita harmonia.
A Herança do Gado Catrina: Resiliência e Identidade
O Custo da Produtividade
As pressões económicas e socioculturais das últimas décadas conduziram a uma elevada preferência para a criação de raças exóticas altamente produtivas, resultando numa redução acentuada das populações nativas. O gado Catrina não foi exceção, vendo a sua existência ameaçada por um modelo que ignorou o valor da nossa biodiversidade e história rural.
O Legado do Sr. João Ângelo
A sobrevivência deste património deve-se à sensibilidade e perspicácia do Senhor João Ângelo. Lavrador e mestre na arte de improvisar, o cantador popular terceirense deixou um legado duplo: o génio do improviso e a preservação de uma raça que moldou a agricultura da Ilha Terceira.
Resistência e Memória Viva
Atualmente, a alma do gado Catrina é mantida por criadores que, de forma estóica e incansável, preservam exemplares puros por Respeito aos seus antepassados, Consideração pelo gado que moldou e deu vida ao nosso mundo rural, Preservação de um ADN único que é parte da nossa história e Reconhecimento da sua excelência, valorizando a longevidade, o aproveitamento forrageiro e a qualidade superior do seu leite e da sua carne.
Cronologia
Marcos históricos da raça Catrina
- 1427
Introdução dos Bovinos nos Açores — Primeiros bovinos portugueses introduzidos no arquipélago, servindo de base genética às populações açorianas.
- Séc. XIX
Primeiras Descrições — Paula Nogueira documenta a diferenciação da raça Catrina face ao gado bravo e manso da ilha Terceira (1894, 1900).
- 1910–1920
O Touro "Catrina Velho" — Surge a designação "Catrina", associada ao touro fundador que transmitiu características únicas às suas crias.
- Séc. XX
Declínio Populacional — A introdução de raças exóticas altamente produtivas ameaça a existência da raça Catrina.
- 2006
Documentação Histórica — Aranda e Silva documenta a história da raça na obra sobre a agricultura na Ilha Terceira.
- 2022
Reconhecimento Oficial da Raça Catrina — A raça Catrina foi oficialmente reconhecida como raça autóctone pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).
- 2022
Constituição da ACGC — A Associação de Criadores de Gado Catrina (ACGC) foi formalmente constituída com o objetivo de promover a conservação e gestão da identidade genética desta população, apoiar a recuperação e manutenção da raça em colaboração com os criadores.
- 2022
Gestão do Livro Genealógico — Após a formalização da associação e do reconhecimento oficial como raça, a DGAV concedeu à Associação de Criadores de Gado Catrina a gestão do Livro Genealógico da raça.